terça-feira, 22 de agosto de 2017

"ALECRIM DOS VENTOS"


O BELO MOÇO, É JOSÉ LOURENÇO DA SILVA.
 CONTAVA PARA NÓS, OS SEUS NETOS, QUE NA JUVENTUDE CONHECERA UMA BELA JOVEM PELA QUAL FORA TOMADO DE AMORES POR TODA A SUA VIDA:  DONA COTA.
 BELA, GRACIOSA E MUITO BEM RESOLVIDA.
CORRIAM OS ANOS FINAIS DA DÉCADA DE 1910, E ELES APAIXONARAM-SE DE MODO QUE ELE NUNCA MAIS SE ESQUECEU DELA, APESAR DO CASAMENTO, DAS FILHAS E NETOS! O AMOR É MESMO ASSIM: INSTALA-SE!
 NA COMOVENTE E TERNA MANEIRA DOS NAMOROS ANTIGOS, DONA COTA RECITARA UNS VERSOS PARA O JOVEM JOSÉ. VERSOS DE PROMESSA, DE PAIXÃO, DE SEDUTORA ENTREGA EMOCIONAL AO BELO JOSÉ!
 O TEMPO PASSOU, A VIDA SEGUIU SEU CURSO, ELE CASOU-SE COM OUTRA MOÇA, ELA CASOU-SE COM OUTRO RAPAZ. MAS O CORAÇÃO DELE AINDA CONTINUAVA DELA! AINDA PERFUMADO PELO AROMA DO ALECRIM, PELO FRESCOR ORVALHADO DO VENTO TRÊMULO DA BEIRA D'ÁGUA, DA SENSUALIDADE PROMETIDA POR SEUS BEIJOS, DO PACTO EMBALADO POR ROMANCE E DESEJO.
DA JANELA DE SUA CASA, A BELA MOCINHA DECLAMARA OS VERSOS, FAZENDO CADA PALAVRA ECOAR PELOS CAMPOS, FAZENDO TREMER A ALMA DE JOSÉ! FAZENDO DESMANCHAR-SE SEU CORPO E A BELA MENINA COTA, PERDIDA EM DELEITES E DEVANEIOS A DERRETER-SE, ASSIM APODEROU-SE DA ALMA DE JOSÉ:

"" Alecrim verde firmeza
 Que do meu peito nasceu
 Tu podes achar quem te ame
 Mas não firme como eu!

Alecrim da beira d'água
 De onde o vento está tremendo
 Um beijo de tua boca
 Da vida de quem está morrendo

Se eu tiver de ser tua
 E tu tiveres de ser meu
 Ainda que me arrependa
 Morrerei nos braços teus!""

MEU AVÔ SE FOI EM DEZEMBRO DE 1990.
 EM 24 DE MARÇO DAQUELE ANO DE 1990, ÀS 19 HORAS, PELA CENTÉSIMA VEZ, ELE NOS CONTAVA ESSA HISTÓRIA DE AMOR ETERNO NO ACONCHEGO DE SUA CASA.
 E EU NA MINHA EXPLOSÃO DE MENINA EM MULHER, PEDI A ELE QUE ME DITASSE O PEQUENO POEMA PARA QUE EU PUDESSE GUARDA-LO, COMPONDO O ACERVO PESSOAL DA FAMÍLIA... NAQUELA ÉPOCA EU NEM SUPUNHA QUE UM DIA TERIA UM ESPAÇO PARA RESGATAR HISTÓRIAS, LENDAS E PERSONAGENS DE NOSSA AMADA ALFREDO GUEDES. ELE JÁ TINHA QUASE 95 ANOS E REVIVIA ESSA MAGIA COM TODA A INTENSIDADE DO DIA EM QUE ACONTECEU. SUA ALMA, CARREGAVA JUNTO DE SEUS INSTINTOS, TODA A DELICADEZA E A DOÇURA DE COTA. SEUS OLHOS IAM DESPEJANDO SABEDORIA E ROMANCE NAQUELA CASA DE SONHOS. NAQUELA SALA, O SEU ANTIGO RELÓGIO DE PAREDE ASSISTIA À SUA EMOCIONADA DECLAMAÇÃO, MESCLANDO CERTA E INDEFINÍVEL MELODIA COM A MARCAÇÃO DOS SEUS TIC-TACS.
HOJE EM DIA, DEPOIS DE TODOS ESSES ANOS DE SUA PASSAGEM, QUANDO ESTOU EM CASA, ESPERO OS ÚLTIMOS CLARÕES DO CÉU PARA IR ATÉ O POMAR DE VEGETAÇÃO DENSA. LÁ, EM DADO MOMENTO, AS SOMBRAS DANÇAM SOBRE OS ÚLTIMOS ROMPERES DAS LUZES, ENTÃO, COM A PEQUENA CLARIDADE AVERMELHADA DO SOL DESPEDINDO-SE DO DIA, OS PRIMEIROS RASTROS DE ESCURIDÃO INVADEM TUDO À MINHA VOLTA, FECHO OS OLHOS E REZO.
EM TREMORES E SOLUÇOS SINTO OS CHEIROS E AS TEXTURAS ANTIGAS, OUÇO MEUS ANTEPASSADOS E ALI RESSURGEM MINHAS CERTEZAS, RENOVA-SE MINHA ALMA. OUÇO SERES QUE NÃO VEJO, ENTRETANTO SEI QUE SOMOS VELHOS CONHECIDOS. SERES QUE NOS GUARDAM HÁ TANTAS GERAÇÕES. PENSO EM ARTHUR, IRMÃO DE MEU AVÔ JOSÉ, REPLANTANDO ENXERTOS DE ÁRVORES PARA O POMAR, E O VEJO PERAMBULANDO NO GRANDE MATO BANHADO DE MÍSTICAS ÁGUAS. SINTO O FRESCOR E A UMIDADE DAS SAMAMBAIAS E AVENCAS DE ARTHUR, DERRAMANDO-SE NA TERRA FRIA, ESPERANDO A NOITE. VEJO MEUS OLHOS EM MINHA BISAVÓ BRANDINA, MÃE DE MEU AVÔ, RECONHECENDO-ME PLENAMENTE NELA, MEU SANGUE A CORRER NOS TEMPOS DESDE AS VEIAS DE BRANDINA. SINTO O PERFUME DO ALECRIM DE COTA E JOSÉ! TREMO JUNTO COM O VENTO QUE AINDA VEM DA BEIRA D'ÁGUA E SEI QUE ALI ESTIVE COM MEU VELHO AVÔ DE OLHOS SÁBIOS, EMOCIONADO A ME ABENÇOAR E RECITAR VERSOS DE AMOR SEM FIM.
QUANDO ADOECEU, ME DISSE AINDA NOS HOSPITAL: "SEI QUE NÃO VOLTO, SINTO QUE ESTOU PARTINDO, MAS CONTINUEM A VIDA DE VOCÊS COM TODA A BELEZA QUE ELA CARREGA, COMEMOREM A VIDA E OS NATAIS. MAIS QUE TUDO, ESTEJAM SEMPRE CERTOS DE QUE NADA SE ACABA E TUDO É ETERNO”...
ABSORVI OS ENSINAMENTOS DE ETERNIDADE COM O MEU VELHO E SÁBIO AVÔ. O HOMEM AO QUAL EU AINDA PEÇO A BENÇÃO. O HOMEM QUE POSSIBILITOU O MEU CAMINHAR E A MINHA VIDA CONCRETA.
ACREDITO E SEI QUE A MORTE É O EXATO LIMITE EM QUE TUDO RECOMEÇA...


                                                                                                guardiadelendas.blogspot.com
                                                                                                Célia Motta.

  

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