quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Prestando contas às famílias antigas, tradicionalmente "Guedenses"

                                                  (Queridíssima e respeitada, Família Turcarelli)

Naquilo que se refere a Alfredo Guedes, bem como ao impasse gerado pela discussão sobre a possibilidade do asfaltamento ou preservação dos paralelepípedos nas ruas guedenses, minha preocupação cresceu absurdamente com o advento da pesquisa popular, aqui realizada no dia 26 de março do corrente ano.

Ocorre que tudo o que vejo e ouço acerca do assunto, não se vincula à defesa da história e à proteção da memória, que poderia ser ampla e sabiamente explorada. A argumentação favorável ao asfalto apresenta-se carregada de falas que apontam a possibilidade remota de acidentes e derrapagens, desgaste de veículos, busca da modernidade, dificuldade de caminhar, (aqui faço necessariamente duas observações: não possuímos movimento considerável de veículo trafegando; e cá pra nós, pedestre caminha em calçadas!) e por aí segue o rol de “fúteis prioridades”.






Falas que denotam imaturidade brutal acerca do tema. Em tempo algum se discute o valor histórico de cada pedra. Penso que tal atitude, reflita em muito, a falta de amadurecimento e esclarecimento do assunto. Ausência absoluta de qualquer juízo de valor. Talvez seja este o fator que mais necessite da apreciação do olhar técnico e imparcial da promotoria, para evitar decisões desastrosas, como a perda considerável do potencial histórico e o afloramento de futuras e inevitáveis lamentações sobre o fato, como já observamos nos dias de hoje, sobre o desaparecimento da mobília de época da nossa escola, a derrubada criminosa das antigas árvores da Praça do Bom Jesus e  de seus postes de iluminação originais, a mudança do nome da escola, aliás, ilustríssimo nome da inigualável Professora Cecília Marins Bosi.
Para cada perda de contexto histórico ou do acervo de memórias, ainda que pareça pequeno o impacto, cria-se uma lacuna sem fundo, intransponível e irrecuperável. Descortina-se a cada passo dado em direção errada, uma descaracterização extremamente comprometedora da essência e originalidade do local.


Contrariando a minha argumentação, percebe-se uma excessiva e estranha preocupação, quer seja do Executivo, quer seja do Legislativo, em satisfazer a vontade popular demonstrada na pesquisa, mesmo estando tal vontade, poluída por vícios de entendimento, esclarecimento e interpretação; como se vê claramente demonstrado nos comentários das redes sociais. É absolutamente inadmissível que a vontade popular suprima a história e o seu valor inestimável. É absolutamente gritante que o assunto seja levianamente tratado, como se divergíssemos sobre a inclusão ou não de mero benefício local, sem consequentes e lastimáveis perdas. Houve sim, evidente e ultrajante distorção do tema, que deveria ser, desde o início, unicamente a história, principalmente pela fragilidade e a complexidade advindas do fato de não haver nenhum pedido de tombamento no passado, expondo o patrimônio histórico ao risco iminente de desaparecer, pela falta do procedimento burocrático necessário ao tombamento.
É exclusivamente em razão da fragilidade à qual está exposta a historicidade local, que retorno e reforço o tema.


Em relação à pesquisa popular, a meu ver desnecessária, pois se trata de ato administrativo, devo ressaltar que dentre a maioria questionada, é mais do que considerável o número de pessoas que não são nativas do lugar e não possuem ascendência “guedense” ou “lençoense”.  A história pessoal e contextual desta maioria pertence a outros polos urbanos, bem como as suas raízes e antepassados, que certamente lhes são caros, estão assegurados em seus lugares de origem . É mais do que natural que não se detenham num resguardo daquilo que para nós é tesouro sem precedentes, passível de gerar, através de intensa visitação, renda familiar local e recursos financeiros para o município. Encontramos então um interessante binômio: o Distrito de Alfredo Guedes hoje, é composto pela grande maioria que veio de outros lugares, do mesmo modo que as Famílias tradicionais de Alfredo Guedes, estão centralizadas em várias cidades da região, predominantemente em Lençóis Paulista. Trocando em miúdos, a pesquisa popular, restrita ao distrito (que por razões estranhas chamam de bairro ou vila) foi a ferramenta populista, escolhida para se lavar as mãos diante do dilema. 
Junte-se ao que foi aqui exposto, o fato de que o Distrito de Alfredo Guedes pertence a Lençóis Paulista, desde o decreto 6.753, de 06 de Outubro de 1934, quando foi anexado ao município, não se desvinculando até os dias de hoje.



O que mostra a necessidade de se ouvir todo o município e não somente a população local, já que a história e a memória se erguem de um profundo entrelaçamento de fatos e pessoas, inseridos num mesmo contexto, que ultrapassa em muito os nossos limites locais. Impossível falar de Alfredo Guedes sem falar de Lençóis Paulista, e vice e versa. De modo semelhante, a história de um, é e sempre será a história do outro.
Em recentes buscas, encontrei vários artigos favoráveis aos calçamentos com paralelepípedos, pela superioridade de redução dos efeitos nocivos ao meio ambiente, maior poder de absorção das águas, gerando um maior equilíbrio ecológico. Também é unânime, o posicionamento técnico, que versa sobre os perigos concernentes às construções já existentes, considerando as trincas resultantes da intensa  e frequente necessidade de reparo e manutenção, em pavimentos asfálticos.



Entendo que tais pronunciamentos sejam pertinentes a esta discussão, para um direcionamento correto de certas atitudes, das quais não será possível voltar atrás.
Mas, nada disso entra em pauta... e, por quais razões, eu me pergunto?
Sem mais para o momento,


guardiadelendas.blogspot.com
Célia Motta.

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