segunda-feira, 2 de abril de 2018

"INVERNOS LONGÍNQUOS"


MARAVILHOSO COMO AS PESSOAS QUE NOS RODEIAM EM TENRA IDADE NOS MARCAM E NOS CARACTERIZAM... CONSTROEM OS PILARES DE NOSSA MAIS PROFUNDA IDENTIDADE!
 NAS ÚLTIMAS NOITES TENHO DIVAGADO, E DIRIA ATÉ QUE TENHO VAGADO POR CERTOS ESPAÇOS NO TEMPO E NA ALMA, ESCONDERIJOS COM PEQUENAS LUZES FOSCAS E AMARELADAS, ESPALHADAS PELOS CANTOS... DAQUILO QUE CONSIGO CAPTAR DE FATO, TUDO SE PINTA EM MARROM E DOURADO. CORES DESBOTADAS PELO TEMPO, PÉTALAS DE ROSAS RESSECADAS PELO CONSTANTE CAMINHAR DOS PONTEIROS DO VELHO RELÓGIO QUE MEU AVÔ RELIGIOSAMENTE ACERTAVA TODOS OS DIAS COM A PEQUENINA CHAVE. ALI SOBRE A CADEIRA, AQUELE HOMEM DE AR AUSTERO, FIRME E CHEIO DE HISTÓRIAS, CASOS E CAUSOS, AINDA ESTÁ A ACERTAR OS PONTEIROS DO SEU TEMPO. A MADEIRA DO CHÃO ESTALA QUANDO ELE DESCE E CAMINHA DOIS OU TRÊS PASSOS, A PARAR NA PORTA E ASSISTIR UM POUCO DO NOTICIÁRIO DA TV EM PÉ.
 SEMPRE FAZIA ISSO... E O VEJO LÁ...AGORA.
 BATIDAS NA PORTA DA FRENTE ANUNCIAM O MOMENTO MAIS ESPERADO DURANTE TODO O DIA: NADIR ESTÁ CHEGANDO. FICARÁ CONOSCO ATÉ ALTÍSSIMAS HORAS ESPERANDO ELIZEU, SEU MARIDO E MEU TIO INESQUECÍVEL, QUE CHEGARÁ DE TREM!
 TIOS QUERIDOS E INSUBSTITUÍVEIS! ELA, A BELA MULHER DA FOTO EM PRETO E BRANCO, IRMÃ DE MINHA MÃE, E ELE, SEU MARIDO TELEGRAFISTA, METICULOSO, MINUCIOSO E ÀS VEZES INCOMPREENDIDO POR ALGUNS. QUERIDO POR MIM, QUE SEMPRE ENCONTREI NELE UM ESPÍRITO AMIGO E COMPANHEIRO DE TODA E QUALQUER HORA. MEU CONFIDENTE DA VIDA ADULTA!
 DURANTE TODO O DIA EU ESPERAVA PELA CHEGADA DE NADIR À NOITE. PRESENÇA QUE FAZIA FESTA EM NOSSA CASA.
 MADRINHA (MINHA AVÓ), A PREPARAR CAFÉ E LEITE ADOÇADO. MINHA MÃE CUIDANDO DO JANTAR DE MEU PAI E TIA EDITHE TODA MEIGA E DOCE COM TODOS ALI... SEMPRE...
 EU VIA EM NADIR ALGO MUITO DIFERENTE DO COMUM... ACREDITAVA QUE ELA TINHA ESPÍRITO DE ARTISTA, SEMPRE BONITA E ANIMADA, BEM HUMORADA, DESENHAVA COM PERFEIÇÃO, ME DAVA IDÉIAS PARA FAZER FANTASIAS PARA AS MATINÊS DE CARNAVAL, PARA AS APRESENTAÇÕES DE DANÇA DA ESCOLA. SIGO VAGANDO, VENDO E OUVINDO TUDO ISSO!
 HAVIA UM SOFÁ-CAMA NA SALA DE TV, VERMELHO E ALI NÓS NOS DEITÁVAMOS PARA ASSISTIR ALGO QUE NÃO TINHA A MENOR IMPORTÂNCIA PARA MIM, QUEM EU QUERIA ESTAVA DEITADA ALI COMIGO! ENVOLVIDA NUM ROUPÃO ACOLCHOADO PEGAVA UM PUNHADO DE BALAS DE MENTA E DISTRIBUÍA.
                                                          Ana Lourenço da Silva

 VEZ OU OUTRA, ANA LOURENÇO, MINHA TIA AVÓ, TAMBÉM VINHA PASSAR AQUELAS HORAS MÁGICAS CONOSCO. QUANDO VINHA, TRAZIA PEQUENOS PÃES FEITOS POR ELA, CUIDADOSAMENTE EMBRULHADOS EM GUARDANAPOS BRANCOS. SÉRIA COMO MEU AVÔ, SOMENTE ESBOÇAVA ALGUNS SORRISOS ENQUANTO NÓS NOS PERDÍAMOS EM CONSTRUTORA ALGAZARRA. E A ALEGRIA DISPERSAVA-SE PELA CASA.
 APAGÁVAMOS AS LUZES E NADIR COMEÇAVA, COM AS MÃOS, A CRIAR IMAGENS QUE SE MOVIMENTAVAM NAS PAREDES.
 O RELÓGIO CONTINUA A ADENTRAR O TEMPO FUTURO, MAS AS LUZES AMARELADAS E ENVELHECIDAS DOS CANTOS DE MINHA ALMA, CONTINUAM ME ARRASTANDO VELOZMENTE PARA O PASSADO. TODAS AS CORES ESTÃO DESBOTADAS... APARECEM VULTOS... QUERO CONTINUAR ALI... O SABOR DO LEITE QUE MADRINHA PREPARARA PRA NÓS ME FAZ ASSENTAR A ALMA EM VIAGEM, POR MAIS ALGUNS MINUTOS... SAUDADES INTENSAS ME DIZEM NOS OUVIDOS QUE DEVO FICAR UM POUCO MAIS E ESPERAR ELIZEU.
 PADRINHO, JÁ BRAVO COM A BALBÚRDIA DAS CORRERIAS PELA SALA! AS RISADAS ALTAS E SOLTAS RESSOAM PELA CASA. A CRISTALEIRA VIBRA NO CHÃO DA SALA E O VELHO RELÓGIO AMEAÇA O FIM DE MINHAS FELIZES HORAS. AS FIGURAS CONTINUAM A DANÇAR NAS PAREDES NUM BONITO JOGO DE LUZ E SOMBRAS E PASSEIAM DENTRO DE MIM. APESAR DO FRIO, SINTO SOMENTE O CONFORTO DE ESTAR DENTRO DO CASTELO DE MEUS SONHOS INFANTIS, A SEGURANÇA DAQUELAS VOZES QUE SEI QUE ME ACOMPANHAM HÁ MILHARES DE ANOS. MINHA MÃE!!!
 AH! O INCESSANTE CAMINHAR DOS PONTEIROS DO VELHO RELÓGIO. OUVE-SE O APITO ESTRIDENTE DO TREM E EM ALGUNS MINUTOS ELIZEU ESTARÁ CHEGANDO.
 ELE ENTRA NA CASA, COLOCA SUA MALETA DE TRABALHO SOBRE A MESA DA SALA DO MEIO, E SEGUE O CHEIRO BOM DO CAFÉ NOTURNO DE MINHA MADRINHA, O AROMA DOS PÃES DE ANA LOURENÇO.
 E A MENINA QUE NAQUELE MOMENTO HABITA EM MIM, COMEÇA A ENTRITECER-SE... NADIR VAI EMBORA... QUERO QUE FIQUE... QUERO FICAR TAMBÉM NA ESCURIDÃO QUEBRADA PELO AMARELADO DAS PEQUENAS LUZES... O TÚNEL COMEÇA A FORMAR-SE NOVAMENTE PARA QUE EU VAGUE NO CAMINHO DE VOLTA... SOU CRIANÇA, NÃO QUERO ACEITAR... QUERO MINHAS EMOÇÕES DAQUELE MOMENTO, A SALA DAS ARTES DE NADIR, AS RAÍZES DA VELHA CASA, A MADEIRA QUE ESTALA E FALA COMIGO... ME CONTA SEGREDOS...A CONVERSA DE MINHA MÃE E MEUS PADRINHOS, O SORRISO INOCENTE DE EDITHE... COM ESFORÇO AJUDADO POR SERES MAIORES, ACOMPANHO ANA LOURENÇO, QUE É A PRIMEIRA QUE SAI DE CENA. MEU AVÔ RECOLHE-SE. EDITHE SE ESVAI EM VAPOROSA FRAGRÂNCIA DE GUARDADOS E RECORDAÇÕES. E DEIXA UMA NUVEM CHEIRANDO A "CASHEMIRE BOUQUET" . MEU PAI DESAPARECE EM SEU LARGO SORRISO. MINHA AVÓ... MINHA AVÓ ME ABRAÇA E COM ELA SE VÃO ALGUMAS DAS LUZES AMARELAS. MINHA MÃE SEGURA MINHA MÃO COM SUA SABEDORIA DISCRETA, E ME LEVA ATÉ A PORTA PARA DESPEDIR-ME DE NADIR E ELIZEU. A ESCURIDÃO ATRÁS DE NÓS ME MOSTRA INSISTENTEMENTE O TÚNEL DO TEMPO PRESENTE, E APENAS O CAMINHAR DOS PONTEIROS SE FAZ OUVIR INCESSANTEMENTE NA SALA QUE VAI FICANDO PARA TRÁS!
 GIRO O TRINCO DE MADEIRA COM FORMAS ARREDONDADAS E PERGUNTO A NADIR E ELIZEU SE VOLTARÃO NA NOITE SEGUINTE.
                     Nadir Lourenço dos Santos e Elizeu dos Santos.

 O VENTO FRIO AUMENTA LÁ FORA E GELA MINHA BOCA INTENSIFICANDO A MENTA DAS BALAS. NADIR PROMETE VOLTAR.
 OLHANDO OS OLHOS SURREAIS DE MINHA MÃE, ME ACALMO NA CERTEZA DE QUE NADIR VOLTARÁ! VOLTARÁ SEMPRE... E PELAS RUAS DE PARALELEPÍPEDOS OUÇO O DESAPARECER DE SEUS PASSOS ETÉREOS.
 VOLTO PARA O TÚNEL, NA SALA JÁ NÃO HÁ MAIS AS LUZES AMARELAS, NEM O CHEIRO DO CAFÉ E LEITE ADOÇADO... SOMENTE UM ECO DE VOZES DESAPARECENDO NA ESCURIDÃO... SINTO AS MÃOS DE MINHA MÃE NAS MINHAS MÃOS... VAGO DE VOLTA E VIAJO ENTRE VULTOS E CLARÕES QUE NÃO CONSIGO DECIFRAR... JÁ NÃO OUÇO O RELÓGIO DE CAMINHAR TEIMOSO...O RELÓGIO ESTÁ PARADO, ME ESPERANDO VOLTAR NO TEMPO E NO ESPAÇO, RASGADO PELO TÚNEL.
 VOLTO COM A CERTEZA DE OUTRAS VIAGENS E EM PLENA SINTONIA COM O CARÁTER CÍCLICO DA ETERNIDADE, COM A JUSTA TRANSITORIEDADE DA VIDA, COM O RENASCER CONSTANTE DAS ALMAS.
 ARTES DE NADIR... PONTEIROS DO TEMPO... LUZES DAS ALMAS...

 CÉLIA MOTTA                                                                          guardiadelendas.blogspot.com

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