segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

ILUSTRÍSSIMA VISITA


As voltas que o mundo dá, a forma como a terra cobre e descobre tudo que ocorre, o modo como o tempo se define como senhor de todos os espaços, é o que me dá a certeza absoluta da Divindade Criadora.
Há uns quatro anos, depois de ter publicado a trágica história da Família Maluf (e) em nosso amado Distrito, quando as vidas do distinto senhor Miguel Maluf e de seu jovem filho Salim, foram violentamente ceifadas de forma covarde e violenta por Emílio Doraciotto, feitor da Estrada de Ferro Sorocabana, pude mais uma vez fazer tal constatação. Doraciotto insistia em querer cortar uma árvore que estava no limite das terras da Família Maluf. Obviamente, Miguel e Salim defenderam sua propriedade, impedindo a derrubada da árvore. Doraciotto reagiu golpeando pai e filho com uma ferramenta, assassinando o jovem Salim imediatamente e ferindo gravemente o senhor Miguel, que veio a falecer um tempo depois no hospital da cidade de Agudos.
Essa história paira sobre Alfredo Guedes até os dias de hoje. Há uma reverência constante, prestada às memórias do pai e do filho. Há uma solidariedade latente, que se estende a todos os seus familiares. Ainda há lágrimas que choram com Salime, seus filhos e filhas.
Entretanto, nós guedenses de alma, sentimos também orgulho e honra ao tomarmos ciência do quanto a sua descendência se tornou valorosa e inteligente. Há um prazer enorme em saber da superação e da capacidade de ternura que emana de cada sorriso e de cada olhar.
Como eu dizia, depois da publicação da história, há quatro anos, em uma manhã eu recebi um telefonema em meu trabalho. Era um homem perguntando por mim. Respondi a ele que eu era quem ele estava procurando. A resposta dele foi de efeito cambaleante para mim. Ele me disse:
“Meu nome é Gustavo Malufe. Eu sou bisneto de Miguel Malufe”.
Ele começou a chorar ao telefone e eu mais ainda. Em soluços eu pensava como aquilo seria possível, depois de tanto tempo? Como aquela história que eu escutava em minha casa desde muito pequenina, poderia agora se manifestar através dos familiares de Miguel e Salime?
Numa fração de segundos, todas as imagens das fotografias que meus avós e minhas tias tinham deles, passavam em minha frente. E eu ouvia a minha mãe contando tudo de novo. O ano de 1939 me recebia junto dos antigos protagonistas daquele enredo, que apesar de triste, era também surreal e poético. Miguel e Salim eram de fato, imortais.
Eu não conseguia alinhar as minhas ideias para falar com Gustavo. A voz dele desenterrava a imagem e a vida de Miguel. A emoção dele me mandava de volta para lá, para ver de perto todos os que eu não conhecera. A respiração dele me fazia vislumbrar dona Salime escrevendo cartas ditadas por minha avó Lazinha, analfabeta, me permitia sentir o cheiro das sopas que Salime preparava para ajudar a minha avó alimentar as filhas doentes com a febre do tifo, e curiosamente Gustavo ganhara um lugar especial nas minhas próprias histórias familiares, como se estivéssemos todos juntos em dado momento. Para mim, já era um amigo querido e merecedor de todo o meu repeito.
Gustavo me disse que um primo chamado Charlie, que morava fora do Brasil havia visto a matéria em meu blog; e que isso despertara a pergunta “quem é Célia Motta”?
E a Célia somente era a pesquisadora encantada pela saga de nobre família, apaixonada pelo resgate de memórias. A Célia era a mulher, que quando menina já escutava essa história no seio de sua própria família, história que consternou o lugarejo para sempre. A Célia era só isso.
Gustavo me prometera uma visita em Alfredo Guedes e no nosso Memorial. A partir daí, iniciamos contato constante, exceto no meu período de saída das redes sociais. Eu não acreditava que podia conversar com o bisneto de Miguel e com o filho de Adelia.

A partir daí, eles davam maior riqueza ao meu acervo de imagens e detalhes, me enviando verdadeiros tesouros. Falar com Gustavo e com Charlie por mais mágico que fosse, jamais me deu a dimensão do que ainda estava por aflorar.
No mês de Novembro de 2018, Gustavo entrava em contato comigo novamente para cumprir o prometido: finalmente a família Maluf estava se preparando para visitar Alfredo Guedes; e eu, finalmente conheceria as pessoas que davam em realidade, testemunho e fundamento ao que meu mestre Eduardo Ayres Delamonica sempre me ensinou sobre o alcance de nossos garimpos de memórias. Eu poderia externar os sentimentos de toda a minha família Lourenço para os antepassados da família deles. Eu poderia trazer Miguel e todos os seus à vida outra vez. Eu poderia trazê-los para o nosso tempo e para o nosso espaço.

Como?
Através dos descendentes!
Pedi ao Executivo que os recebesse oficialmente, já que teríamos conosco as presenças dos filhos de Sahid Maluf, nascido em Alfredo Guedes, jurista renomado e autor da obra de Direito, Teoria Geral do Estado. Dr. Miguel Alfredo Malufe Neto (segundo Gustavo, “Migue”l em homenagem ao avô e “Alfredo” em homenagem a Alfredo Guedes), pai de Gustavo e o responsável pela atualização das reedições da obra jurídica de Sahid. Maria Regina, Livre Docente em Psicologia, filha de Sahid e de dona Nagiba (também advogada e poetisa) também nos daria a delícia de sua presença e de seu sorriso iluminado. E haveria mais: receberíamos Antonio Carlos Rizeke Malufe, Secretário Adjunto da Casa Civil do Governo Doria. Uma autoridade do governo estadual, olharia as nossas flores das praças, caminharia sobre o nosso chão, hoje menos encantado por conta da ausência de nossos paralelepípedos na rua principal e sobre a plataforma de nossa estação de trem. A mesma estação que recebeu os passos de seus antepassados.
E o Executivo providenciou o devido Cerimonial.  Alfredo Guedes bradou os nomes de seus ilustres filhos em plena euforia.
A Ordem dos Advogados de Lençóis compareceu no evento, com as presenças do seu presidente, Dr. Sales e de Dr. Vicente Bento de Oliveira, que foi o primeiro presidente da OAB em nosso município.
O jovem neto de Adelia, Ryan, violinista integrante do grupo musical Calidore String Quartet, foi o responsável pelo discurso da família e pela nostalgia de sua apresentação de violino. Divino menino!
Cintia filha de Adelia e mãe de Ryan contagiou o Distrito com sua expressão de verdadeiro entusiasmo. Seu pai Patrick também marcou fortemente a visita. O filho de Gustavo, Arthur trazia o vigor de sua juventude para perto de nós.

Charlie, a quem prezo demais pela distinta consideração e amizade que tem tido comigo desde que todos nós nos descobrimos, infelizmente ainda não nos deu a honra e a alegria de sua presença.
Nós nos falamos sempre, ele me manda notícias de sua mãe e as mais belas imagens de época de nosso amado lugar.
E aqui, nesse recôndito de lendas, de memórias doloridas, de lágrimas de escuridão no romper das noites mais solitárias, retornam todos à antiga casa. Retornam plenos de gratidão e alegria pelo passar do tempo, pelas reconstruções, pela preservação da memória. Retornam em sangue renovado, em comunhão com os novos dias. Com o sol escaldante eles chegaram lindos e sorridentes, em semeadura de sonhos antigos, em férteis plantios de recomeço.

E a árvore de Miguel e Salim?
Bem, a árvore está de volta plantada pelos familiares, com mãos de bênçãos.  Crescerá forte e robusta, como uma filha que ainda será a grande matriarca. Como Salime, a árvore viverá aconchegando Alfredo Guedes em verde sombra.
E eu, que sempre seguirei por esses mesmos caminhos, que não sairei daqui nem depois de meus últimos dias, continuarei esperando pelas próximas visitas. E sonharei em todas as noites com almas flutuando em nossa Estação de Trem, não mais com lágrimas de tristeza, mas com olhares de esperança e superação. Pois a Vida segue juntamente com cada vagão que se vai.Nós nunca morremos, nós nos transformamos e nos aperfeiçoamos. Miguel e Salim se tornaram imortais e são agora verdadeiras Lendas Vivas de Amor e Luz.

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                                                              Célia Motta.



    O Prefeito Prado discursando.


Prefeito Prado passando a palavra ao Dr. Miguel Alfredo

    Célia Motta na abertura do evento

    Impossível não chorar, ao receber das mãos de Cintia, uma pintura original feita e assinada por Dona Adelia

    Todos os olhos voltados para a placa comemorativa

    Prefeito Prado também recebendo a ilustre família
   
                      A placa comemorativa da ilustre visita, para sempre colocada em nosso Memorial

Conversa entre juristas: Dr. Miguel Alfredo, Dr. Sales (presidente da OAB de Lençóis Paulista) e Dr. Vicente Bento de Oliveira (nosso primeiro presidente da OAB de Lençóis Paulista

    Gustavo Malufe e Célia Motta

    Gustavo, Cristina, Maria Regina, Célia Motta, Cintia, Ryan, Patrick e Arthur

                     O sorriso de Maria Regina, para sempre será o "nosso" sorriso

     O plantio de uma árvore em nosso Distrito de lendas e histórias. Conosco, o secretário de Cultura Marcelo Maganha e Romildo Vera Dias.
     
    Equipe da Secretaria do Distrito, dando suporte ao plantio da árvore da família. Dr. Antonio Carlos, Secretário Adjunto da Casa Civil do Governo Doria nos dando a honra de sua visita
 
    Ryan, Gustavo, Cristina e Arthur: o vigor da juventude entre nós

   Momento dos mais emocionantes, Ryan Meehan tocando o seu violino na Igreja do Bom Jesus... e as almas vieram... e os anjos desceram até nós.
 
A visita tão esperada de Gustavo e sua família, prestigiando o nosso Memorial Alfredo Guedes

   Dr. Antonio Carlos, Secretário André Sasso e o Secretário Ticianelli

   Dr. Antonio Carlos (sempre muito solicitado) com o Secretário de Cultura, Marcelo Maganha e seu sobrinho Gustavo

Visitante também ilustre, recebendo de Dr. Miguel um exemplar de Teoria Geral do Estado, o Professor e Doutor em História, meu grande amigo Edson Fernandes.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Alfredo Guedes em Festa!

Contamos com a presença de todos para apreciar uma agradável manhã, com a abertura da Exposição da Família Maluf.
Haverá exposição sob tendas na Praça do Bom Jesus, apresentação da Orquestra de Câmara da Casa de Cultura, demonstração do violinista e concertista Ryan Meehan, da Banda The Calidore String Quartet, descerramento de placa comemorativa e o plantio de uma árvore nas imediações do local do crime de 1939, onde o senhor Miguel Maluf e seu filho Salim, tiveram as suas vidas ceifadas pelo feitor da Estrada de Ferro Sorocabana, Emílio Doraciotto, ocasião em que Emílio precisava cortar uma árvore para construir uma cerca. A divergencia surgiu por conta de estar a árvore no limite da propriedade da Família Maluf.
As capelas do Bom Jesus e São Benedito ficarão abertas para visitação, bem como o Memorial Alfredo Guedes. Estará presente o Dr. Miguel Alfredo Maluf (que é quem atualiza as obras de Direito Constitucional de Sahid Maluf - Sahid nasceu em A. Guedes), o filho de Sahid e de Nagiba M. R. Maluf (professora, advogada e escritora) o Dr. Antonio Carlos R. Maluf, futuro Secretário Adjunto da Casa Civil do Governo Doria, além de outros membros da família, como a Psicóloga Maria Regina, também filha de Sahid e Nagiba, Livre-Docente da PUC-SP.
O singelo e a intelectualidade em mistura perfeita, inebriados pela emoção da boa música!

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segunda-feira, 29 de outubro de 2018

A LUTA CONTINUA

Fui pega hoje  pela manhã, totalmente de surpresa, com o posicionamento do Dr. Railson Rodrigues, diga-se de passagem, meu superior imediato, pois trabalho na pasta da qual ele é o Secretário.
A postura e a conduta democrática por excelência, não me surpreenderam, pois o conheço desde que ele era ainda um menino, e acompanhei toda a sua trajetória e amadurecimento, mesmo de longe. Sempre soube de sua bagagem de conhecimento, tanto em política, quanto em administração.
Mas, que orgulho eu senti ao ver que a memória de meu pai representava tanto, para alguém tão jovem e tão letrado. A surpresa, foi por ter um fato antigo, da vida de alguém que se fosse vivo, teria já seus 87 anos.  A surpresa foi pelo fato de constatar que verdades plantadas deixam raízes imortais no tempo e no espaço. E a Democracia foi a grande semeadura de meu pai. 
Pensei aqui comigo, em todas as turmas que Railson (me permitirei ao menos uma vez, chamá-lo de modo informal, para externar o meu carinho e o de meu pai também) formou, de livre e espontânea vontade, versando sobre cidadania e Constituição. E vi que realmente, o meu pai sempre teve razão, quando dizia que as lutas não são em vão. Realmente, ainda que morramos, é necessário que essa morte ocorra com o nosso caráter e a nossa personalidade em pé, pois de fato, o legado permanece.
Braço direito da administração municipal, advogado, jovem, audacioso, inteligente e carismático: perfeita alquimia para o futuro da nossa cidade. Aberto ao diálogo, e disposto a receber novos conhecimentos, ele faz parte da juventude Democrática que tocará o nosso Município, nessa incessante corrida de bastão, que é a nossa vida, em sua essência. Meu pai ontem, o Motta, com certeza deve ter vindo tomar uma comigo, como diria Ciro Gomes"só pra rebater". Eu fiz exatamente isso e fiz dizendo como o próprio Ciro: "agora vou tomar uma só pra rebater". Eu ainda não sabia dessa declaração pública e democrática de Railson, em referência ao meu pai... mas o meu pai já! Eu sei que já.
Obrigada pai e obrigada Railson, por deixarem a minha manhã de dores e temores pelo resultado das eleições, mais tranquila e tragável; mas principalmente por não me deixarem perder de foco, de que a luta continua. Obrigada por nos oferecer um cenário tão lindo em dia de votação, carregando a mais poderosa de todas as ferramentas que alguém pode portar: livros!
Um jardim de livros, foi a mais profunda beleza de ontem, em meio às turbulentas e desequilibradas atitudes dos violentos.
Obrigada pela sobriedade e pelo respeito no dia da maior festa Democrática da nossa Nação. Obrigada por eternizar, mais uma vez a memória, a vida e a luta do homem negro, corajoso e de inteligência brilhante, que se deu pelo Estado Democrático de Direito.
Obrigada pela sensibilidade de portar livros e sabedoria.
#DEMOCRACIA


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quinta-feira, 25 de outubro de 2018

SALVE SALVE! MOA DO KATENDÊ!

UM ETERNO VIVA A MOA DO KATENDÊ!
MESTRE MOA, ETERNO DO BADAUÊ...
SALVE SALVE
MOA DO KATENDÊ
SALVE SALVE NOSSA PÁTRIA, NOS AJUDEM OS ERÊS


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Poema de Arnaldo Antunes


POEMA DE ARNALDO ANTUNES


IstoNãoÉUmPoema

isto não é um poema
só
desabafo
que não pude não
fazer e não pude fazer
de outra forma
que não fosse
assim
fatiando as frases
no espaço
aqui
hoje
eu vi
aterrorizado
um artista assassinado
Moa do Catendê,
mestre de capoeira,
autor do Badauê —
por conta de uma divergência política num bar
da Bahia
depois corri o dedo
sobre a tela e
vi e ouvi
arrepiado
Luiz Melodia
(também negro e compositor,
também com o cabelo rastafari,
como a vítima do post anterior)
cantando
“no coração do Brasil”
e repetindo muitas vezes
esse refrão
“no coração
do Brasil”
“no coração do Brasil”
que tento sentir
pulsar ainda
entre a luz de Luiz
e a treva
desse buraco vazio
que não pulsa mais no peito
de Moa do Catendê
e “não existe amor em SP”
ou “no coração do Brasil”
fraturado
nesses dias
brutos
de coturnos
chucros
a chutar a cara
de quem
ama
arte
cultura educação
liberdade de expressão
diversidade
cidadania
solidariedade
democracia
mas não se dá
a mínima
o que importa é se subiu
a bolsa
caiu
o dólar
se todos vão prosseguir
seguindo
docilmente para o abismo
nessa insanidade coletiva
em que o Brasil nega
qualquer Brasil
possível
cega
qualquer futuro possível
e o ódio
o horror e o
ódio
e nada que se diga faz sentido
mais
para quê
expor na cara desses caras
a palavra explícita
(gravada em vídeo e repetida, repetida, repetida)
do seu “mito”
dizendo
“eu apoio a tortura”
“eu defendo a ditadura”
“eu vou fechar o congresso”
“não servem nem para procriar”
“não te estupro porque você não merece”
“a gente vai varrer esses vagabundos daqui”
“o erro foi torturar e não matar”
“viadinho tem que apanhar”
etc etc etc etc etc
e tudo mais
que repete incansavelmente
há anos
ante câmeras e microfones
para quê mostrar de novo
e de novo
o mesmo nojo
se é justamente
por isso
que o idolatram?
e sempre haverá
os que vêm disfarçar
dizendo:
“estamos entre dois extremos”
“sim, mas veja a Venezuela”
“é para acabar com a corrupção”
“nós queremos segurança”
ou
“não é bem assim…”
enquanto constatamos cada vez mais
que sim,
é assim
mesmo, é assim
que é
mas
como li por aí:
“como explicar a lei Rouanet para quem
ainda não assimilou a lei Áurea?”
ou: como explicar a lei da gravidade
para quem ainda crê
que a terra é plana?
e querem defender sua ignorância com dentes
e garras
querem
matar atirar vingar
a quem?
em nome de quem?
(pátria, família, propriedade, segurança?)
se nessa seara não há direitos
nem respeito
ensino ou dignidade
só horror e
ódio, ódio
e horror
as palavras perdem a clareza
os valores perdem o valor
a vida perde o valor
Marielle
remorta remorrida rematada
por sua placa
rompida rasgada desonrada
pelas mãos truculentas de
brutamontes prepotentes
com suas camisetas estampadas
com a face do coiso
que redemonstra sua monstruosidade
quando vende
em seus próprios comícios
camisetas de outro
ultra-monstro
Ustra
—
aquele que além de torturar
levava crianças para verem
suas mães torturadas
—
e esses mesmos
abomináveis
que, diante de uma claque vergonhosa,
se orgulham
de terem
rasgado as placas
com o o nome Marielle Franco
estão sim
agora
eleitos
satisfeitos
mas não saciados
de todo o sangue
de inocentes
que há de correr
só por serem
diferentes
excitando em outros
o desejo de exercer
seu obscuro
poder
de milícia polícia esquadrão da morte
e o anúncio da Rocinha metralhada
como solução
a barbaridade finalmente
institucionalizada
como diversão
o Brasil finalmente
sem coração
fora da ONU
e dos acordos internacionais pelo
meio-ambiente
sem controle
de sensatez ou mentalidade
sem limite humanitário
“não vai ter ong!”
“não vai ter ativismo!”
“não vai ter mimimi!”
bradam
cheios de si e de ódio
criminosos contra o crime
opressores pela família
amorais pela moral
apesar de todos
os alertas
da imprensa internacional
de esquerda, de centro, de direita
só não vê quem não quer
a tragédia anunciada
divulgada
não como boato
mas escancarada
- mente
enquanto
empoderados pelo discurso
de ódio
de horror e ódio
seus eleitores
já saem pelas ruas
dando tiros
e gritos
enxurradas de fakes
suásticas nazistas gravadas com canivete
na pele da menina
que usava “ele não” estampado na blusa
e a promessa de violência desmedida
se concretizando
antes mesmo de começar o segundo turno
e nem um centímetro de terra para os índios
e nem um pingo de direitos civis ou humanos
e a volta da censura e o ódio,
o ódio, o horror
e o ódio
pra encerrar de vez
o sonho de uma nação
que tem a chance
de dar ao mundo
sua contribuição
original
agora fadada a repetir o que de pior já houve
na história
sem história agora
sem Museu Nacional
nem cultura nem educação
abolir filosofia e arte
em seu lugar:
moral e cívica
escola militar
religião
geografia dos lucros e dividendos
massacre das minorias
horror e ódio
e ódio
e horror
crescente permanente enquanto dure
pois ninguém larga o osso assim tão fácil
depois de um golpe
que precisa parir outro golpe
ou autogolpe
alimentado por todas as fakes e facas
contra as costas de artistas
como Moa
mas na cabeça de quem apóia
tudo se justifica:
o fascismo
a tortura dos presos
o sumário julgamento sem juri
autorização dada à polícia
para matar
e o ódio aos pobres
as blitzes ostensivas
a guerra declarada
dos que aceitam assassinos para combater bandidos
se está tudo invertido mesmo
pobre elegendo milionário,
pelo avesso e ao contrário
então se autoriza a sórdida
barbárie
dos fortes contra os fracos
algo está muito doente
no Brasil
no descoração do Brasil
que mente, se omite, agride, regride
para avançar sem freios
em direção ao fascismo
seguindo a música hipnótica do
ódio,
horror e ódio
pregados em igrejas
em nome de Deus
e de Cristo
só desamor em nome de Cristo
violência e brutalidade em nome de Cristo
armas e tortura
e preconceito em nome de Cristo
de Deus e de Cristo
armar a população
para metralhar os adversários
os diferentes
os miseráveis
os favelados
os do outro lado
os que se manifestam
ou contestam
ou pensam de outra forma
ou se vestem
de outra cor ou tem
outra cor ou
qualquer pretexto
que se crie
para espalhar o ódio, o horror
e o ódio
do machismo ao estupro
da mentira ao linchamento
do homicídio ao genocídio
(“tinha que ter matado pelo menos trinta mil!”)
já sem democracia
palavra vazia
em boca
de quem compactua
(e não são poucos)
pensando ser
possível
alguma forma de
neutralidade
nesse momento
como Pilatos
lavando as mãos
a chamada mídia
tenta fazer média
ao dizer que os dois lados são igualmente
extremistas e perigosos
mas então
onde estavam nos últimos três mandatos
e meio
antes do pesadelo Temer?
estavam numa ditadura comunista
e não sabiam?
na verdade
todos sabem muito bem
que o extremismo
vem de um só
lado, que
quer se eleger para acabar
com eleições
e que o grande perigo é mesmo
esse jogo
de equivalências que,
na verdade
serve ao monstro
pois a omissão é missão impossível
neste agora
impossível
mascarar o sol
da ameaça
hostil e explícita
do nazismo
crescente
com a peneira furada
de um bom senso
mediano hipócrita indiferente
que sempre
vai dizer:
sim, mas a Venezuela…
como se não tivéssemos ouvido exatamente isso
em 64,
quando diziam:
— Sim, mas Cuba…
para justificar a ditadura militar
que tanto elogiam
hoje em dia
e que o atual
presidente
do nosso Supremo Tribunal Federal
decidiu
que agora vai chamar
de “movimento”
em vez de
“golpe militar”
para adoçar um pouco a boca
amarga
do sangue
impregnado
que não vai sumir assim
mudando a nomenclatura
desnomeando a já tão dita
“ditadura”
mas esse des-
- equilíbrio
ético
que diz
preferir uma autocracia
perfeita
a uma
defeituosa
democracia
esse
erro
que nenhum arrependimento será
capaz de reparar
quando for tarde
demais
ainda dá
para evitar
ainda
é tarde
de menos
para
conter
o ódio,
o horror e o ódio
ainda
dá
dd
a
d

                                                                          Brilhantíssimo, o nosso Arnaldo Antunes.
                                                                           guardiadelendas.blogspot.com
                                                                            Célia Motta.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Como o Motta, que sempre defendeu os direitos sociais e trabalhistas, eu sou pelo Estado Democrático de Direito. Quem sai aos seus não degenera!


Waldemar Geraldo da Motta. Meu pai e meu orgulho. Perseguido e preso durante os tenebrosos anos de chumbo. Motivo? Reivindicação de direitos sociais e trabalhistas, pleiteados por um homem NEGRO e POBRE. Fundamento? Um homem inteligentíssimo e destemido, profundo conhecedor de tantas e tantas ideologias políticas, entre elas, a dialética Marxista. Um enorme sorriso pensante. Um incômodo para a sociedade conservadora e falso moralista.



Com todas as dores provocadas pelo encolhimento de toda a direita, com o alto preço que uma Nação (estranha) paga, por não investir na Educação, com todos os temores possíveis e imagináveis diante de tantas afrontas cometidas contra o Estado Democrático de Direito, em meio ao risco de enfraquecimento e afrouxamento de todas as instituições: só há uma saída saudável, que é Haddad e Manu.
Não sou petista, mas não conseguiria jamais passar por cima da memória e da luta de meu pai, o Motta, e outorgar uma procuração por quatro anos (ou quiçá por tempo indefinido?), para um homem que enquanto parlamentar, declara uma homenagem à escória militar, personificada em Ustra. Um homem assim, jamais me representará e jamais me defenderá como cidadã.
Estamos diante do pior momento que a nossa estranha nação já viu. Tenho visto somente absurdos e conceitos errôneos sobre direita, esquerda, comunismo, socialismo e Venezuela. Pura falta de leitura. Gigantesca falta de conhecimento. Vozes adestradas para repetir o que lhes for mandado. Marionetes em sua maioria. Maquiavélicos em sua minoria, dando as cartas para os próximos jogos de chibatas. Como a mídia idiotiza e como a falta de cultura emburrece e limita.
Mas, eu aprendi com o meu pai, que até para morrer, há que se morrer em pé. O legado sempre permanecerá na conduta e no posicionamento.

                                                                             guardiadelendas.blogspot.com
                                                                             Célia Motta.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Flores e Cores de Marielle



Feita de cor
Adornada de Luz
Mártir florindo
Sua Cruz parindo, seres sorrindo
Concluiu a sua passagem
Ela sim, verdadeiramente virou mito
Mito de verdade
Mito de Liberdade
De valores reais
Cabelos transmutados em raízes de história
Semeou seus frutos, mulher cheia de Glória
Floresceu suas negras flores no Poder
Nos deu mais voz
Nos deu mais força
Nos deu mais vida, quando a besta ceifou a sua própria vida... besta apocalíptica?
E ressurgiu em um pedacinho de cada uma de nós, mulheres negras, suas discípulas
E brilha em um cantinho de nossos sorrisos
Se mostra mais forte do que nunca
Nosso olhar, é ela quem inunda
De emoção, de devoção, de adoração, o nosso coração
Forja metal e fogo em nossas almas, e Iansã  nos transforma em suas guerreiras
Vibram atabaques africanos dos nossos ancestrais
E assim como o vento precede a tempestade
Assim como Xangô chega antes de Oiá
A morte chega para nos trazer você, heroína eterna e divina
Negra mãe de todas nós
Linda e infinda
Viva e forte
Mais santa que outras santas
Mais corajosa, pois sua força é mansa
Bela
Voa
Suas Crias Abençoadas a legislar agora
O seu legado colorido jamais será destruído
Se enganaram os lacaios da besta
Se enganaram os enganadores trevosos
Pois nós, mulheres negras, sempre soubemos transcender em nossas dores
Se equivocaram os executores
Erraram em seus métodos e controles
E através de seu erro, as nossas peles e cores, com a nossa Mestra Marielle, triunfaram os nossos valores
Viva a nossa cor a retumbar nos tambores
O Feminismo eclode mais e mais
Nossos úteros já vieram sagrados em perturbador alvoroço
As bruxas das fogueiras, flutuam santificadas
Nos amparam, nos protegem, não eram o mal encarnado, mas sim a mágica Alquimia
E nós as amamos
Mãe terra! Mãe Lua!
Mãe África! Mãe água!
E nossa Marielle, mãe Águia Ressuscitada!
Mais viva do que sempre, brilharão as suas pétalas de Luz
Os Orixás se rendem à sua perseverança, lhe reverenciam e nos banham de Esperanças


                                                                           
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